Por que doações ao PT são propinas e aos demais partidos ‘contribuição eleitoral’?

Todos os grandes partidos receberam doações de empresas citadas na Lava Jato, inclusive o PSDB. Porém, quando o alvo é o PT, vale tudo: de investigação seletiva à prisão ilegal

O esforço para criminalizar única e exclusivamente as doações feitas ao Partido dos Trabalhadores é tão grande que os investigadores e a Justiça não se constrangem em ignorar dados que desmontam suas teses, como os percentuais de doações feitos por empresas investigadas na Operação Lava Jato e as demais.

A relação entre as doações efetuadas pelas empreiteiras investigadas e as realizadas pelas outras empresas aos principais partidos são, em montante, proporcionais, como demonstra a figura abaixo.

Fonte: Informações compiladas a partir de dados do site do TSE

Fonte: Informações compiladas a partir de dados do site do TSE

Até mesmo o jornal O Estado de S. Paulo chegou a esta conclusão óbvia, como é possível constatar na edição de 29 de março de 2015.

Estadao

Então, respondam: Se há crime nessas doações, por que não estão investigando todos os partidos? Por que o único tesoureiro preso é o do PT?

Em meio a uma avalanche de notícias que mais desinformam do que informam, é necessário esclarecer mais uma vez o que reafirmamos desde o início: os principais partidos do País – e não só o PT – receberam doações das empresas investigadas na Operação Lava Jato e de outras empresas. É importante lembrar que os partidos que fazem oposição ferrenha ao governo federal também receberam, conforme já abordamos neste blog.

O que intriga as pessoas de bem, que realmente querem Justiça no Brasil, é o fato de o juiz Sérgio Moro, os procuradores e os policiais federais que fazem parte da Operação Lava Jato ignorarem completamente dados públicos como esses que estamos abordando neste texto.

A resposta parece simples: é a política!

Se não fosse uma questão política, como explicar a ânsia deles de, a todo e qualquer custo, tentar carimbar a tese de que João Vaccari Neto seria o operador responsável por receber dinheiro desviado de contratos da Petrobras? E veja bem: ele teria feito isso por meio de doações oficiais e legais ao partido. Basta uma hipótese jamais comprovada para manter a prisão ilegal do ex-tesoureiro do PT, contestada pela sua defesa.

O absurdo é tamanho que situações cômicas, se não fossem trágicas, acabam transformando a política brasileira em um teatro dos absurdos. Uma delas é o mais recente capítulo sobre o desenrolar da ação do PSDB e da Coligação Muda Brasil – do candidato derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves. Na ação, eles solicitam ao Tribunal Superior Eleitoral a cassação do mandato da presidenta Dilma Rousseff por abuso de poder político e econômico na campanha de reeleição em 2014. Eles receberam doações das mesmas fontes. Se tivessem ganhado pediriam uma autocassação?

O doleiro Alberto Youssef foi ouvido na manhã desta terça-feira, 9, na Justiça Federal, em Curitiba, justamente por causa da ação aberta pelo PSDB no final de 2014. E sabe o que de mais novo tem em seu depoimento? A afirmação de que não participou ativamente de esquemas durante a disputa de 2014 por estar detido. Isso mesmo. Ele estava preso em função da Operação Lava Jato.

Pois vejam só o tamanho do descaramento dessa oposição: em 2010, enquanto o PT arrecadou cerca de 23% do valor total doado pelas empresas citadas na Lava Jato, o PSDB recebeu 20%. Já em 2014, esses valores corresponderam a 25% e 24%. Ora, sejamos francos e paremos com as hipocrisias que sustentam as picuinhas políticas. Os dois principais partidos que polarizaram a disputa eleitoral nos dois últimos pleitos receberam praticamente o mesmo valor dessas empresas.

As informações apresentadas por Vaccari durante seu depoimento à CPI da Petrobras, no dia 9 de abril de 2015, confirmam a proporcionalidade das doações aos grandes partidos e a legalidade das doações obtidas pelo PT.

Fonte: Informações compiladas a partir de dados do site do TSE

Fonte: Informações compiladas a partir de dados do site do TSE

Portanto, chega de hipocrisia para sustentar manchetes em jornais com o claro objetivo de cassar o registro do PT e destruir o legado do partido frente a Presidência da República.

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Por que o tesoureiro do PSDB e dos demais partidos não estão na cadeia?

Empreiteiras envolvidas na Lava Jato fizeram doações para todos os grandes partidos, inclusive PSDB e DEM. Mas, para o juiz Moro só as doações ao PT são ilegais

Pode ser apenas uma incoerência. Pode também ser má-fé, perseguição política. Pode ser qualquer coisa, menos Justiça. A prisão do ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, cujos desdobramentos têm sido marcados por uma espetacularização midiática e uma Justiça de exceção, é absolutamente injusta, sem nenhum fundamento.

O juiz Sérgio Moro, os procuradores e os policiais federais que fazem parte da Operação Lava Jato fazem um esforço enorme para criminalizar única e exclusivamente as doações feitas ao PT. Ignoram completamente todas as outras doações feitas no mesmo molde. Mas isso não é pauta para a imprensa burguesa nacional. Quando se trata de ‘acabar com a raça petista’, como queria o Jorge Borhausen, ninguém questiona as incongruências das autoridades. Muito pelo contrário, se esforçam para divulgar com estardalhaço tudo que suas excelências vazam. Em alguns casos, tratam o juiz como herói (deve ser o herói descrito por Mário de Andrade, só pode).

Nem o mais renomado jurista consegue explicar porque sua excelência prendeu e mantém preso o ex-tesoureiro do PT que não tem nenhum sinal de enriquecimento ilícito, muito pelo contrário, como afirmou a própria Receita Federal – Vaccari é classe média, nada mais do que isso – e sequer investiga um ex-tesoureiro do PSDB, Márcio Fortes, um dos 8 mil brasileiros que manteve contas secretas no HSBC, de acordo com o caso Swissleaks.

Márcio Fortes, aliás, tem uma história que qualquer investigação séria sobre doações ilegais levaria em consideração. Ex-deputado federal, ex-tesoureiro de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ele nunca declarou suas três contas no banco suíço nas declarações de bens enviadas ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), onde, entre 2006 e 2007, tinha US$ 2,4 milhões.

Enquanto Márcio Fortes segue livre, com direito de ir onde quiser sem sequer ser constrangido pelos revoltados de plantão, Vaccari está preso e diariamente é atingido com ataques à sua honra, à sua dignidade, ao seu caráter.

Está mais do que provado que as empreiteiras que integram o “clube” investigado por formação de cartel na Petrobras fizeram doações ao PT e, no mesmo período, também realizaram doações aos cofres do PSDB, DEM, PMDB e demais partidos. E isso está provado, registrado lá na Justiça Eleitoral. Para se ter ideia, em 2014, enquanto o PT arrecadou cerca de 25% do valor total doado por essas empresas, o PSDB recebeu 24%. Ora, sejamos francos. Os dois principais partidos que polarizaram a disputa eleitoral receberam praticamente o mesmo valor dessas empresas.

Por que, então, os tesoureiros dos demais partidos, em especial o do PSDB envolvido no caso swissleaks, que também receberam recursos dessas mesmas empreiteiras, não estão presos? Por que o dinheiro que essas mesmas empresas doaram para outros partidos é legal e o dinheiro doado para o PT não é? Como bem sintetizou em seu texto o jornalista Paulo Moreira Leite: “Alguém convive em paz com a noção de que o dinheiro que chega para os tucanos como “contribuição eleitoral” se transforma em “propina” quando se destina ao PT?”.

Diante dos fatos, só resta uma conclusão: Vaccari está preso única e exclusivamente por ter sido tesoureiro do PT e ter arrecadado recursos legais e oficiais para o partido. Talvez o nome Partido dos Trabalhadores e tudo o que ele representa seja a resposta para essas perguntas. A extinção do PT e “dessa raça” é um projeto que volta e meia frequenta os planos da oposição reacionária e golpista brasileira.

Sabemos que a democracia se encontra em perigo quando a elite assume comportamentos antidemocráticos, estimulando o ódio e atos de barbárie. É preciso, portanto, ficar atento quando a Justiça de exceção, gestos raivosos e tentativas golpistas de assumir o poder tentam tomar a força o protagonismo do cenário político.

Veja abaixo quanto recebeu os 12 partidos que mais arrecadaram das empreiteiras investigadas pela Lava Jato

 

PARTIDO 2010 % sobre o total PARTIDO 2014 % sobre o total
PMDB 32.850.000,00 24% PT 56.386.000,00 25%
PT 31.400.000,00 23% PSDB 53.730.000,00 24%
PSDB 27.770.000,00 20% PMDB 46.620.000,00 21%
PSB 19.515.000,00 14% PSB 15.800.000,00 7%
PR 6.501.000,00 5% DEM 12.100.000,00 5%
PP 4.950.000,00 4% PP 10.255.000,00 5%
PRB 2.400.000,00 2% PSD 7.139.081,00 3%
PSC 2.050.000,00 1% PR 6.850.000,00 3%
PDT 1.860.000,00 1% PDT 3.350.000,00 2%
PC do B 1.750.000,00 1% SD 3.050.000,00 1%
DEM 1.640.000,00 1% PTB 2.950.000,00 1%
PTB 1.480.000,00 1% PSC 1.350.000,00 1%

(Fonte: TSE)

*As empresas consideradas são: Galvão Engenharia; Odebrechet; UTC; Camargo Correa; OAS; Andrade Gutierrez; Mendes Júnior; Iesa; Querioz Galvão; Engevix; Setal; GDK; Techint; Promon; MPE; Skanska.